Por que será que temos tanta dificuldade em aceitar um favor de estranhos? Quando se tem filhos, passa-se por cada uma. Não é que Laurinha me inventa de querer uma coxinha numa hora em que eu, sem um puto tostão, estava a comprar umas coisitas lá para casa. Tenho mania de não andar com dinheiro, apenas com o cartão. Laura vê, nas mãos de uma menininha de sua idade, uma "coxa" (assim ela se refere à coxinha) que parecia bastante saborosa:
- Quero coxa mamãe! Quero Coxaaaaaaaaaaaaaaaaaa!
Dentro da Leroy Merlin tem uma lanchonete que não aceita cartão de debito, nem cartão de nenhum tipo. Fui falar com a moça e a mesma nada preocupada com os gritos de "QUERO COXA" de minha pequena. Desesperada, falei para a caixa operadora que registrava minhas compras se não teria como passar dois reais a mais. Ela então, tentando me ajudar disse que sim. Mais do que depressa já peguei a coxa e calei Laurinha. Para minha surpresa chega a chefe das caixas e veta os meus dois reais já prometidos pela pobre operadora que me olha como quem diz - Só queria ajudar, mas não deu! E agora? Um rapaz que estava na seqüência da fila e já vinha acompanhando o desenrolar da historia saca 10 reais do bolso e me oferece. Senti todo o sangue existente em meu corpo direcionar-se para minha face. Quanta vergonha! Não ter dois reais no bolso. Minha primeira reação foi um “não” categórico seguido de “obrigada”. Mas o rapaz insistiu tanto, mas tanto com os 10 reais na mão. Sem contar todo o resto da fila a me olhar, cobrando uma decisão. Quanto constrangimento em torno de algo aparentemente tão banal. Não tive alternativa senão aceitar. Mal conseguia olhar para os lados. Marcelo ficou puto comigo, ora essa! O que eu poderia fazer? Mas por que temos tanta resistência em aceitar a benevolência alheia? A primeira sensação, não deveria, mas é de humilhação. A segunda é de vergonha. E o restante, tem a ver com o que o fato nos remete. Remete-nos a falta. Mesmo que momentânea, ali se revela a falta, a incompletude. Não podemos estar a todo o momento com o controle das coisas e isso é o que mais nos atormenta. O pior é que um fato, como disse aparentemente banal, fez com que um silencio (salvo pela felicidade de Laurinha com a coxa na mão) se instalasse na restante do caminho até o shopping. Besteira! Existe tanta coisa tão pior que isso, mas enfim, na hora não conseguia parar de pensar em passar no primeiro caixa eletrônico e sacar algum dinheiro, com medo de que outra situação semelhante voltasse a acontecer. Para minimizar minha culpa por ter aceitado a ajuda do desconhecido, disse-lhe:
- Tomara que um dia possa lhe encontrar novamente e retribuir. Obrigada!
Publicado em 28 de janeiro de 2008 às 13:52 por srocha